Há uma etiqueta que vale
ouro. Diz: "Património Mundial da UNESCO".
Desde 13 de Julho de 2025, essa etiqueta está
colada nos Bijagós. “Omatí Minhô”. 88 ilhas e ilhêus, 33 mil habitantes, 870
mil aves migratórias, tartarugas que vêm desovar desde a época dos nossos avós.
O IBAP lutou mais de 10 anos por essa etiqueta, depois de uma candidatura
rejeitada. Finalmente, o mundo disse: este
lugar é de todos, tem de ser protegido.
Mas o que acontece
quando, por trás da etiqueta, se esconde o plástico?
Recebi a denúncia fui
confirmar: está montado, dentro da própria Reserva da Biosfera dos Bijagós, uma
fábrica de embalagem de água em sacos plásticos. Sacos de 50 francos. Os mesmos
sacos proibidos pelo Decreto-Lei 16/2013. Os mesmos sacos que a Comissão
Interministerial encerrou em Mansôa e Bissorã em junho ultimo, por
"extrema insalubridade".
Agora implantam essa
fábrica dentro do paraíso.
Unidade de produção e embalagem de
agua no saco de plastico, situado em Bubaque na estrada em direção a Ancamona
depois da entrada da comunidade de Bijante em Bubaque
Isto não é desenvolvimento.
É um crime ambiental com Label.
Como é que se explica? Um
hotel em Bissau já produz quilos de plástico por dia que acabam no mar. Um
turista paga para ver um golfinho nos Urok e, no barco, bebe água num saco que
daqui a uma hora vai boiar ao lado do golfinho. Se essa água for embalada
DENTRO da reserva, estamos a transformar o próprio Património Mundial numa zona
industrial de plástico de uso único.
A UNESCO foi clara no
parecer: “o valor dos Bijagós está na sua integridade, nos ecossistemas
costeiros e marinhos ligados, nas vasières e mangais fundamentais para a vida
marinha”. Uma fábrica de plástico dentro desse perímetro viola todos os
princípios da Reserva da Biosfera desde 1996, do Sítio RAMSAR desde 2014 e
agora do Património Mundial.
E viola o sagrado. Nos
Bijagós, há ilhas onde não se pode fazer barulho porque são sagradas. Há praias
onde não se entra sem pedir licença aos espíritos. Como vamos pedir licença
para instalar uma máquina que cospe 10 mil sacos por dia que vão demorar 450
anos a desaparecer?
A pergunta que não deixa calar
é quem autorizou? Com que estudo de impacto ambiental? Com que consulta às
comunidades bijagós que são as guardiãs do Omatí Minhô?
Não podemos usar o label
da UNESCO para vender turismo ecológico lá fora e, cá dentro, autorizar o
negócio do plástico que destrói o mesmo.
Se a fábrica continuar,
não estamos só a poluir uma ilha. Estamos a rasgar o diploma que ganhámos em
Paris, e que levou vida se não a juventude de muita gente para conseguir. E a UNESCO pode retirar o que deu. Já aconteceu com outros países que
construíram dentro de sítios classificados.
O Bijagós não precisa de
água em saco plástico. Precisa de água potável filtrada, de furos com energia
solar, de garrafas de vidro retornáveis, como já se exige aos hotéis em Bissau.
O Label tem de significar
algo. Património Mundial por fora, tem de ser Património Mundial por dentro.
Sem plástico. Sem fábrica. Sem hipocrisia.
ATS;
A Razão e a Verdade
Amadú
Tidjane Sal
Jornalista
especialista ambiental












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